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4 oportunidades dadas pelos formatos audiovisuais curtos para contar histórias de saúde sem perder o rigor e a relevância

julho 26, 2022
4 oportunidades dadas pelos formatos audiovisuais curtos para contar histórias de saúde sem perder o rigor e a relevância

Por: Javier Drovetto

A cobertura de saúde costuma ser sóbria. O tema provavelmente limita a criatividade ou o tratamento leve do mesmo. Os meios de comunicação e os jornalistas acham que uma narrativa tradicional garante rigor e respeito com a comunidade envolvida nas reportagens, como, por exemplo, com pessoas que tem determinadas doenças e seus familiares.

Essa visão pode estar certa. Mas quais oportunidades não estamos perdendo por não contarmos histórias de saúde em formatos audiovisuais curtos? Proponho nesta coluna identificar quais aportes uma narrativa inovadora sobre saúde pode oferecer para explicar uma notícia, conectar o público através das emoções, aproveitar as novas formas de consumo e informação e retroalimentar nossa cobertura.

Entender muito bem o que é complexo para explicá-lo de maneira simples

A notícia em si mesma é, cada vez mais, uma mercadoria (commodity) que não nos garante um valor diferenciado em relação a outros meios ou jornalistas. Por outro lado, sabemos que grande parte do público gosta que o ajudemos a entender as notícias. Mas há algumas notícias, em particular as relativas a temas de saúde, que são complexas de explicar se as abordamos de uma maneira tradicional. Ou seja, podem ser entediantes para o leitor. Nesses casos, os formatos audiovisuais podem ser uma boa alternativa.

Lembram do conceito de achatar ou suavizar a curva de contágios da COVID-19? Surgiu no princípio da pandemia e a melhor maneira de ajudar o público a compreender a ideia foi por meio de narrativas visuais didáticas. Assim fez a jornalista Lucía Wei Hen em um vídeo explicativo de apenas três minutos, que inclui algumas animações simples que permitem compreender a notícia de uma maneira muito gráfica.

Os formatos visuais permitem, além de explicar fácil o que é complexo, abordar temas de saúde que não necessariamente oferecem uma “manchete informativa”, que não respondem à lógica da “manchetável”, mas que permitem ao público acompanhar o tema pelo entendimento. As sete placas ou infográficos publicados no feed do Instagram da RED/ACCIÓN (Argentina) explicam de maneira muito eficaz e com rigor como as vacinas funcionam. Ainda que por alguns momentos possa parecer muito básico, é fundamental que a cobertura de saúde evite mal-entendidos.

Conectar-se com novos públicos ao oferecer outras experiências de consumo

Não é novidade que adolescentes e jovens se informem principalmente pelas redes sociais. Uma vez mais isso é dito no novo informe do Instituto Reuters sobre o consumo de notícias digitais. Por isso, é quase um dever pensar novas formas de contar nossas histórias de saúde nos formatos audiovisuais das redes sociais que as pessoas menores de 30 anos escolhem para se informar.

Com uma história visual de só uma imagem, Salud con Lupa (Peru) explica quanto dinheiro uma mulher gasta com anticoncepcionais, no contexto da interrupção da maioria dos serviços reprodutivos por parte do Estado peruano. Enquanto neste outro infográfico, o meio peruano expõe a escassez de investimento nacional em serviços de saúde mental.

Alguns anos atrás seria impensável apurar um tema para contá-lo em uma história ilustrada de menos de 30 segundos. Más há alguns anos o jornalismo também não competia pela atenção do público com o entretenimento, o ócio e o consumo de uma maneira tão direta dentro de uma mesma plataforma.

Pictoline é emblemático em comunicação visual. A agência mexicana narra e contextualiza notícias em ilustrações curtas e também aborda temas de saúde que estão fora da agenda midiática. São temas que se não fossem pelo formato visual, com certeza não seriam abordados. Por exemplo, em uma ilustração, introduz ao público um tema de saúde seguramente desconhecido: a parcopresis, ou “intestino tímido”, como é chamado o transtorno no qual muitas pessoas não vão ao banheiro senão o da própria casa.

O audiovisual favorece a conexão através das emoções

Há alguns anos consegui entender realmente como um transtorno de saúde pode impactar uma pessoa, porque experimentei o que sente uma pessoa com um transtorno graças a um vídeo de pouco menos de três minutos publicado pela AJ+ Español (Catar) em sus redes sociais: uma encenação do cotidiano de uma pessoa adulta com déficit de atenção e hiperatividade (TDAH).

Que eu tenha me conectado com o tema pela emoção de me sentir no corpo dessa pessoa não é casual. O formato audiovisual opera em vários de nossos sentidos e pode potencializar nossas histórias. Inclusive pode fazer brilhar entrevistas simples que em um texto poderiam ser apenas isso: simples entrevistas.

Quando Rocío diz para a câmera que tem autismo e explica como chegou a seu diagnóstico, sem dúvida o público da Fundacion La Nación (Argentina) pode entender melhor este transtorno e a diversidade em que ele acontece. Por acaso não é isso o que o jornalismo de saúde deve perseguir e abraçar como objetivo?

As narrativas visuais e a retroalimentação que as redes sociais oferecem

Se há algo que as redes sociais alimentam com seus algoritmos é a possibilidade de que os usuários interajam, uma ação que mantém o interesse das pessoas em estarem nelas. No mesmo sentido, os conteúdos jornalísticos visuais ajustados aos formatos desses espaços virtuais permitem capturar o público rapidamente e graças à interação, que é o que falta na nossa cobertura de saúde.

Em plena quarentena, RED/ACCIÓN publicou uma série de desenhos sobre os métodos contraceptivos de alta eficácia e distribuição gratuita que pela lei o Estado argentino deve garantir. O conteúdo teve grande alcance, mas sobretudo muita participação do público, que concentrou grande parte de seus comentários em apresentar dúvidas sobre se as pílulas anticonceptivas femininas são realmente o melhor método para evitar gravidez não desejada, se tomar pílulas engorda ou se é certo que elas diminuem o desejo sexual.

Essa história publicada no Instagram com certeza deixou claro que existia uma necessidade de se contar uma segunda história, que o meio publicou posteriormente com o título Pastillas anticonceptivas: las respuestas a las dudas de quienes las toman o planean hacerlo.

No jornalismo, poder e saber escutar o público para satisfazer suas necessidades com um conteúdo de qualidade simboliza uma operação de sucesso.

Sobre o Prêmio Roche

O Prêmio Roche de Jornalismo em Saúde é uma iniciativa da Roche América Latina com a Secretaria Técnica da Fundação Gabo, que busca premiar a excelência e estimular a cobertura jornalística de qualidade sobre temas de saúde e ciência na América Latina, integrando os olhares sanitário, econômico, político, social, entre outras áreas de investigação no jornalismo.

 

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