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Três recomendações para fazer com que as notícias locais de saúde tenham alcance nacional

julho 12, 2022
Três recomendações para fazer com que as notícias locais de saúde tenham alcance nacional

Por: Alejandro Millán

Se algo ajudou a reafirmar a pandemia da COVID-19 foi a necessidade urgente do público de encontrar conteúdo verídico e confiável sobre temas de saúde.

Pessoalmente, o desafio de reportar os alcances da crise sanitária se somou a outro desafio que enfrentamos diariamente na redação da BBC Mundo, onde fazemos uma cobertura jornalística para o público latinoamericano e de língua espanhola: Como fazermos com que as notícias locais tenham um alcance maior ainda que nosso enfoque seja regional?

Como sempre, não há respostas absolutas, mas sim algumas conclusões depois de dois anos de jornalismo na pandemia. Criamos então três recomendações para ajudar a aumentar o alcance e o impacto dos temas de saúde, inclusive daqueles que não têm a ver com a COVID-19.

Uma boa ideia e primeira recomendação para que um tema passe de um âmbito local para um mais amplo é passar dos números para o relato humano.

Enquanto é improvável que um público amplo se interesse pelas estatísticas particulares de um lugar que lhe é estranho, os depoimentos e as históricas em primeira pessoa podem se converter em uma via de entrada ao tema que queremos abordar.

Em 2016, o artigo da BBC Mundo ‘El refugio Nieves Nieves: La conmovedora historia de la familia de albinos que vive en el encierro en Puerto Rico‘, ganhador da menção honrosa no Prêmio Roche de Jornalismo em Saúde, começou com um dado publicado no jornal The Washington Post, que dizia que Porto Rico tinha a maior prevalência no mundo da síndrome Hermansky-Pudlak, um tipo de albinismo.

Como ponto de partida, o número nos pareceu interessante. Então começamos a investigar. No entanto, foi só quando encontramos o relato da família de albinos, que devido a sua condição vivem quase reclusos em Arecibo, no noroeste de Porto Rico, que pudemos contar uma história com um alcance mais global.

Depois de passar vários dias com eles, a reportagem serviu para explicar a condição, as origens e os efeitos da síndrome através de um relato humano, e ao mesmo tempo expôs um cenário de carências no atendimento médico na ilha, realidade comum na América Latina.

A segunda recomendação é baseada em nossas experiências e na maneira em que encaramos o nosso ofício: muitas das notícias locais publicadas diariamente tem um enquadramento potencial que dá maior perspectiva ao trabalho e pode gerar um interesse maior na história.

Mas encontrar esse enquadramento é uma tarefa árdua.

Logo no início da pandemia ficou evidente a dificuldade em cobrir as notícias do dia a dia em cada um dos países da região, e os jornalistas da BBC Mundo se concentraram em buscar enquadramentos das histórias locais que poderiam dar um panorama regional da emergência sanitária em andamento.

Exemplo disso talvez seja a cobertura feita no Equador. Ainda que o primeiro caso da COVID-19 tenha sido registrado no Brasil, nas primeiras semanas as taxas per capta de infectados e mortos eram particularmente altas em território equatoriano.

Ainda que fosse evidente que algo com valor noticioso estava por trás daquilo, não encontrávamos um foco que nos permitisse contar essa história com uma perspectiva regional: tudo estava conectado a casos locais, isolados, que eram muito similares aos que os meios de outros países como Peru, México ou Argentina estavam fazendo.

Até que depois de vários dias de apuração conseguimos abordar o tema de outro ângulo: os equatorianos são a maior comunidade de imigrantes latino-americanos na Espanha, país europeu que naquele momento era um dos epicentros da pandemia. E o alto número de contágios no Equador se devia ao fato de que muitos equatorianos tinham viajado da Espanha até a cidade de Guayaquil.

Foi assim que conseguimos contar uma história interessante para muitos outros leitores no resto do continente, com uma manchete além da notícia dura e crua: ‘¿Por qué Ecuador tiene el mayor número de contagios y muertos per cápita de covid-19 en Sudamérica?

Uma última dica, que é mais uma ferramenta para ampliar a cobertura sobre um determinado tema, é recorrer a valiosas (e saborosas) entrevistas com líderes e referências da saúde.

Por que digo isso?

Primeiro, um dado que destacam diversas pesquisas (entre elas, a publicada por Tamara Vázquez-Barrio, Teresa Torrecillas-Lacave e Rebeca Suárez-Álvarez no artigo ‘Credibilidad de los contenidos informativos en tiempos de fake news: Comunidad de Madrid’), que diz que, dada a viralidade da informação falsa, que se difunde até vinte vezes mais rápido que a verdadeira nas redes sociais, é provável que, ao longo de 2022, vamos consumir mais notícias falsas que verídicas.

Uma das formas de combater esta ameaça e alcançar um público maior é que os próprios pesquisadores e especialistas, divulgadores que dão estofo e contexto em temas da ciência e da saúde, nos deem suas visões sobre um determinado tema e nosso papel seja o de aproximar esse olhar especializado dos nossos leitores mediante o formato de entrevista.

Assim, por exemplo, quando começaram as restrições pela pandemia, muitas das notícias locais nos países onde se concentram nossa audiência falavam dos efeitos do confinamento nas pessoas, apesar de não haver muita informação confiável no momento sobre o tema.

Em junho de 2020, a BBC Mundo publicou uma entrevista com Elke Van Hoof, especialista em stress e trauma da Universidade de Vrije, em Bruxelas. A entrevista teve como manchete uma aspa dela: ‘El confinamiento es el mayor experimento psicológico de la historia’, e foi uma das matérias mais lidas do ano, com 450.000 visitas, 2,25 minutos de leitura em média e amplamente compartilhada e comentada nas redes sociais.

Fizemos nossa cobertura de saúde com regularidade durante a pandemia: as entrevistas permitiram que especialistas de saúde abordassem, de maneira geral, as inquietações que todos estavam vivendo a nível local. Permitiram que abordássemos aspectos mais abrangentes da pandemia (como o impacto psicológico do confinamento, voltando ao exemplo de cima) para o público, ou também contar o que acontecia em diferentes cidades e regiões do continente dando voz a um especialista internacional.

Como aponta a Reuters Institute em um relatório recente sobre desagregação de notícias locais, os desafios dos meios locais para crescer e competir são maiores que nunca hoje em dia. O jornalismo de saúde tem um alcance amplo e muito potencial para chegar a um público maior. Ao fim e ao cabo, bem-estar interessa a todos. Por isso que o empenho em buscar caminhos que permitam que nossas apurações alcancem um público maior deveria ser tratado como uma oportunidade e uma necessidade.

Sobre o Prêmio Roche

O Prêmio Roche de Jornalismo em Saúde é uma iniciativa da Roche América Latina com a Secretaria Técnica da Fundação Gabo, que busca premiar a excelência e estimular a cobertura jornalística de qualidade sobre temas de saúde e ciência na América Latina, integrando os olhares sanitário, econômico, político, social, entre outras áreas de investigação no jornalismo.

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