Por que apostar no jornalismo colaborativo?

Imagem para ilustrar a coluna de Patricia Marcano de 5 de novembro de 2021.

Por: Patricia Marcano

O jornalismo colaborativo foi ganhando espaços, pouco a pouco, na América Latina e isso é uma boa notícia. Com o tempo aprendemos que as parcerias entre distintos meios de comunicação em coberturas especiais dentro do país ou em trabalhos transfronteiriços se traduzem em reportagens mais completadas, de maior qualidade e impacto. Inclusive, em países onde a liberdade de expressão, o direito à informação e o jornalismo estão em risco, as parcerias ajudam a romper a censura.

São várias as motivações e maneiras de conseguir isso. As vezes a colaboração jornalística é feita para republicar conteúdos. Acontece quando um meio de comunicação ou um grupo de jornalistas faz o trabalho e procura logo um meio para publicar ou, dependendo da natureza do tema e se engloba vários países, busca vários membros do país envolvido ou algum de cada nação interessada.

Em outros casos, a colaboração busca cobrir um mesmo tema entre vários, editar juntos e publicar. Por exemplo, um meio de circulação nacional pode buscar uma parceria ou colaboração com um meio regional para cobrir um evento entre ambos, com jornalistas no local e em outra cidade. Também pode ser o caso de vários meios locais fazerem uma parceria para uma cobertura jornalística com o objetivo de se proteger com a publicação em conjunto e simultânea: unem esforços e se tornam mais fortes ante uma possível agressão de certos poderosos que não querem ser descobertos ou que algo seja revelado.

Uma motivação clássica é ter um tema transnacional ou transfronteiriço. Nesses casos, pode ser uma parceria entre dois ou mais meios de comunicação de países diferentes para seguir o rastro de certas pessoas, empresas ou transações. Isso permite conseguir informação complementar em outros países, em outras jurisdições que não se alcançam desde uma redação, pois implica que vários jornalistas, em diferentes países, façam a apuração necessária sobre o mesmo tema. Isso se vê, sobretudo, em histórias sobre corrupção ou crime organizado porque ultrapassam fronteiras.

Pode acontecer também que um meio de comunicação ou um grupo de jornalistas consiga um vazamento no qual há dados e informação de vários países, o que torna necessário buscar meios de comunicação parceiros em cada um deles. É o que ocorreu, por exemplo, com investigações lideradas pelo consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação (ICIJ) ou pelo Occrp (Organized Crime and Corruption Reporting Project).

Uma vez identificado o tema que pode ser trabalhado desde o jornalismo colaborativo, e dependendo das distintas motivações, há uma série de aspectos que devem ser considerados, abordados e cobertos para fazer com que a parceria ou projeto em conjunto tenham um bom resultado. Essas seriam algumas recomendações:

– Definir papeis. Buscar o ponto forte de cada meio e, em função disso, definir o que cada um fará.

– Designar um coordenador do projeto ou, se vários meios participam, um coordenador em cada um deles. Essa pessoa será encarregada de fazer reuniões em dois níveis: com a equipe diretora e com a equipe de repórteres, designers, desenvolvedores, e equipe de redes sociais. Isso vai depender da estrutura interna de cada meio de comunicação.

– Estabelecer a data de publicação. Os textos serão publicados ao mesmo dia e à mesma hora em todos os meios? Qual é o melhor dia e hora para todos?

Esclarecer como serão as publicações. Será uma serie com várias entregas? Todos os meios publicam o mesmo texto ou cada um terá sua versão própria? A edição dos textos também é colaborativa ou de cada meio?

Estabelecer um cronograma de trabalho. Fixar um deadline para a entrega dos textos. Isso é importante porque a partir da entrega começam outros processos: edição, checagem de dados, trabalho gráfico e de redes sociais.

– Comunicação e seguimento constante. Isso é fundamental e muito importante. Sem comunicação fluida, a colaboração pode terminar ou pode gerar más interpretações que afetem o trabalho.

– Compartilhar sem egoísmo. No caso dos jornalistas, quando se trabalha com colegas de outros países em uma mesma história é importante o compromisso e a confiança. Cada um vai buscar informação em suas respectivas cidades ou nações e vai compartilhar ela com os seus colegas. Todos aportam informação. Assim é possível unir as peças soltas do quebra cabeça ou identificar as lacunas que faltam ser preenchidas. Isso se traduz em histórias mais robustas e completas.

Toda parceria ou colaboração, se flui bem, pode levar a uma rede de jornalistas que, mais adiante, poderá se unir de novo para seguir contando histórias.

Sobre o Prêmio Roche

O Prêmio Roche de Jornalismo em Saúde é uma iniciativa da Roche América Latina e da Secretaria Técnica da Fundação Gabo, que busca reconhecer a excelência e fomentar o trabalho jornalístico de qualidade na cobertura de temas de saúde na América Latina.

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