Como superar as dificuldades para cobrir temas de saúde?

Imagem para ilustrar a coluna de Alice de Souza de 16 de novembro de 2021.

Por: Alice de Souza

Esta coluna é publicada a partir do ‘Guía sobre el estado actual del periodismo en salud en América Latina’, documento da Fundação Gabo e da Roche América Latina, que oferece uma radiografia e, por sua vez, um roteiro para um exercício jornalístico cada vez mais rigoroso, inovador, colaborativo e próximo do público. Baixe o guia gratuitamente

A cobertura de saúde não costumava ter tanto prestígio antes da pandemia. Sempre esteve ali como um assunto relevante, que vez ou outra ganhava as páginas principais de um jornal ou minutos a mais na televisão, mas que perdia fácil atenção e espaço para questões de economia e política. Só as urgências visibilizavam a saúde na pauta jornalística, e a impressão é que assim seguiria ocorrendo, se o COVID-19 não tivesse deixado de ser uma “crise” e se transformado numa “época”, como ouvi recentemente em uma formação sobre vacinas e imunização da International Women’s Media Foundation.

O surgimento do vírus sars-cov-2 e o seu prolongado efeito social, capaz de tomar quase dois anos da nossa história, colocou holofotes sobre a cobertura de saúde e, em consequência, mostrou o quão desafiador e cheio de dificuldades é o trabalho nessa área. Não é à toa que 76% dos jornalistas da América Latina consideram como uma das principais dificuldades nesse período a falta de formação ou especialização, como traz o ‘Guía sobre el estado actual del periodismo en salud en América Latina’, da Fundación Gabo e da Roche.

Lidar com temas tão humanos e, ao mesmo tempo, tão científicos requer preparo. Mas não há formações suficientes, já não havia muito antes da chegada do vírus. Basta olhar para a minha própria realidade. Ao longo de mais de 10 anos de reportagem, dos quais seis deles dedicados aos temas de saúde, a minha principal formação tem sido a prática. Conto nos dedos a quantidade de cursos que fiz integralmente voltados para o jornalismo de saúde ou a comunicação científica.

Na maioria das vezes, busquei formação por iniciativa própria, não do veículo ao qual estava vinculada, pela necessidade imposta pelo surgimento de uma nova crise sanitária. Aprofundada ou não em questões de virologia, epidemiologia e infectologia, fui atropelada pela epidemia do zika vírus, cujo epicentro de casos foi justamente o estado em que vivo, Pernambuco, no Brasil, em 2015. Seis anos depois, fui mais uma vez invadida pelo que viria ser a pandemia do COVID-19.

Se o meu desespero por uma cobertura potente e prudente era grande, imagino o dos colegas que nunca haviam escrito um texto sobre saúde, sobretudo diante da crise financeira por que passa o jornalismo local. Por isso é fácil também entender por que 76% dos colegas da região do Cono Sur y Rio de la Plata, entrevistados no Guía, apontam a baixa remuneração salarial como uma das principais dificuldades na pandemia. Se torna ainda mais óbvio que cobrir saúde requer preparo, o que necessita investimentos, que por sua vez quase nunca estão disponíveis a contento.

Equalizar essas dificuldades se faz necessário, visto que a cobertura de saúde se provou interseccional e permanente. Não é responsabilidade só dos jornalistas, mas do entorno a garantia dessas formações e de remunerações capazes de pagá-las. Por outro lado, a despeitos dos esforços coletivos, outras crises sanitárias virão e precisamos estar mais preparados para não repetir erros e negligenciar enfermidades emergentes. Por isso, deixo aqui algumas dicas de como empreender esforços individuais e de baixo custo para qualificar a cobertura na área de saúde:

1. Busque jornalistas locais referências na cobertura de saúde e ciência 

Quase todos os veículos de comunicação, sobretudo os mais tradicionais, têm pelo menos uma pessoa que cobre saúde. Procure conversar com ela, tirar dúvidas sempre que estiver diante de uma pauta na área, pergunte quais são as fontes ideais para aquela reportagem e leia/veja tudo o que aquela pessoa produz. Se não há formações suficientes em jornalismo de saúde, há jornalistas para nos ensinar pela experiência. Aqui no Brasil, destaco Cristiane Segatto, Cláudia Colluci, Roxana Tabakman e André Biernath. Na América Latina, temos Fabiola Torres, Aleida Rueda e outros.

2. Procure cursos e formações em fundações e centros de pesquisa em jornalismo 

Com a pandemia, surgiram várias oportunidades gratuitas de formação para jornalistas em saúde. O taller “Claves para cubrir la vacunación contra el COVID–19 en América Latina”, da Fundación Gabo; a Iniciativa Global de Reportajes sobre la salud: vacunas e inmunización en África y América Latina y el Caribe (IWMF); o Covid-19 Crisis Reporting Hub (Thomson Reuters Foundation); o “Jornalismo científico: Da pandemia à crise climática, como melhorar a cobertura de ciência” (Knight Center); “Cobertura da vacina para COVID-19: O que os jornalistas precisam de saber (Knight Center)”, entre outros.

3. Tire todas as dúvidas e cheque mais de uma vez as informações

Uma das maiores dificuldades de quem começa a produzir reportagens sobre saúde é na interpretação de estudos científicos e na capacidade de sintetizar e tornar acessíveis os termos técnicos ditos por médicos e cientistas em uma entrevista. Isso pode ser vencido de várias formas. É preciso ter em mente quem é o seu público leitor e explicar isso aos entrevistados. Preocupe-se sempre em como a sua audiência irá entender o conteúdo. Também não tenha medo de perguntar a mesma questão para a fonte duas, três ou mais de quatro vezes se for preciso. E tenha uma agenda de fontes confiáveis, pessoas atualizadas nas pesquisas da área, sem conflitos de interesse e capazes de te ajudar a interpretar as investigações científicas (essa lista deve ser revista periodicamente, dado o negacionismo e posicionamento político médico atual). Caso você não cubra saúde com frequência, há algumas instituições, como a Agência Bori, que disponibilizam uma agenda de fontes, por onde você pode começar a montar a sua.

4. Busque guías para te auxiliar na interpretação de informações

Nem sempre haverá um especialista disponível para te ajudar, mas há diversos guias e manuais públicos, preparados por instituições acadêmicas e jornalísticas, que também podem cumprir esse papel. Um deles é o guia da Organização Mundial da Saúde, que também disponibiliza informes periodicamente em sua página. Outros são o “Manual de Edição em Jornalismo Científico”, publicação do programa Knight de Jornalismo Científico (KSJ) do Massachusetts Institute of Technology (MIT), e o Manual Noticiando Vacinas, da Agência Bori. No Brasil, a Revista Radis e o portal da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) são excelentes fontes de informação.

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