Como fazer jornalismo investigativo com temas de saúde?

Imagem para ilustrar a coluna de Patricia Marcano de 9 de setembro de 2021.

Por: Patricia Marcano

Não é comum. Quando falamos de jornalismo de saúde costumamos associá-lo a trabalhos de cobertura diária, a reportagens informativas e poucas vezes a reportagens investigativas. O ritmo frenético do hard news restringe as possibilidades de fazer histórias longas, mas podemos tirar proveito disso e ir além.

É possível transformar um tema de cobertura diária em uma grande investigação de saúde. A chave está em ficarmos atentos ao “elemento disparador”, essa sensação que nos diz que pode haver algo a mais no fato ou denúncia que estamos cobrindo, na notícia que escrevemos ou lemos, no anúncio oficial que vemos e começar a nos perguntar: Há algo oculto aqui? Pode haver algo revelador? Esse algo é de interesse público?

Essas perguntas concentram as características que marcam o jornalismo investigativo: revela algo oculto, tem relevância para o público e nasce da iniciativa do jornalista. Trata-se da iniciativa que nos leva a propor possíveis temas aos editores e que deveríamos pôr em prática para ir abrindo espaço para temas de saúde dentro da agenda investigativa.

Podemos estar na cobertura de um protesto em um hospital que está em obras há anos, com obras por acabar ou entregues com má qualidade, de acordo com denúncias dos médicos. Qual foi a empresa ou as terceirizadas que fizeram esses trabalhos? Elas têm experiência no ramo? Venceram uma licitação, ou, como foi fechado esse contrato? O dinheiro foi investido na obra?

Nesses anos de pandemia assistimos como os governos nacionais, e até os locais, se envolveram na compra de medicamentos, insumos médicos, vacinas. Podemos olhar como esses contratos foram feitos e quem se beneficiou com isso, as conexões que essas pessoas têm, o custo, a procedência. Por que esses laboratórios ou empresas foram selecionados? Houve intermediários? Foi uma compra direta ou triangulada?

Para passar das suspeitas à busca de dados, identificação de padrões e descobertas, é preciso aplicar várias técnicas investigativas. Entre as primeiras recomendações está a formulação de uma hipótese: ela vai nos guiar no processo de busca para evitar uma busca aleatória. Podemos formular uma hipótese mínima e uma hipótese máxima, que vão se traduzir na história mínima ou máxima que planejamos contar, mas devemos sempre estar dispostos a mudar essa história no meio do caminho à medida em que avançamos na busca da informação e descobrimos que o caminho é outro, que nos equivocamos com a hipótese proposta ou que ela precisa ser reformulada. Inclusive, podemos descobrir que o tema não se sustenta e tudo bem também.

Como o volume de informação será grande, é fundamental a elaboração de bases de dados própria. Jogar a informação em uma folha, organizar os dados que vamos compilando e cruzá-los ou fazer tabelas dinâmicas vão se tornar hábitos.

Identificar as empresas envolvidas e começar a rastreá-las (o que fazem, quem são os acionistas, suas redes de negócios) costuma ser um bom ponto de partida. Nos registros comerciais é possível encontrar parte dessa informação (vários países permitem acesso gratuito a seus registros online). Também existem as bases de dados internacionais, gratuitas, que permitem que jornalistas façam pesquisas. Uma delas é a Aleph, que reúne informação comercial de mais de 140 países e territórios, desenvolvida pelo Projeto de Reportagem da Corrupção e Crime Organizado (OCCRP, em inglês).

Se o rastreamento da informação inclui a procura por importações e exportações de produtos há várias opções a ser consultadas: Import Genius, Panjiva e Data Sur. Nas duas primeiras é possível fazer solicitações nos e-mails de contato. A busca avançada do Google sempre será uma ferramenta útil e valiosa para conseguir dados. E as fontes vivas, claro, não devem ser deixadas de lado.

Em temas de saúde é crucial buscar especialistas, pedir explicações e orientações a eles para entender desde termos técnicos até processos. Os cientistas e médicos que são professores universitários costumam ajudar muito. É fundamental, além disso, revisar muito bem qual é a fonte de informação, se o dado foi publicado em uma revista científica reconhecida ou não, qual o tamanho da amostra do ensaio clínico, revisar detalhes, ver a metodologia. Também não esquecer que, por exemplo, um estudo in vitro, em laboratório, e um estudo em animais não é igual a um estudo feito com pessoas. O número de participantes é importante.

Ser rigoroso e manter a precisão do dado é vital, sempre. E deve ser evitado criar falsas expectativas. Lembremos que quando trabalhamos com temas de saúde, aquilo que publicamos deve causar uma mudança de hábitos nas pessoas ou influenciar a tomada de decisões.

O jornalismo investigativo se faz com método, perseverança, iniciativa, vontade e olfato. É preciso passar muitas horas em frente a uma tela, lidar com bases de dados, adotar outro ritmo de apuração, e lidar com um alcance maior.  Levar temas de saúde para o campo da investigação jornalística é possível.

Sobre o Prêmio Roche

O Prêmio Roche é uma iniciativa da Roche América Latina, com a Secretaria Técnica da Fundação Gabo, que busca premiar a excelência e a cobertura jornalística de qualidade sobre saúde na região.

Para mais informação ou para tirar dúvidas sobre a nona edição do Prêmio Roche, escreva para o email: premioroche@fundaciongabo.org

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