Como se especializar em ciência e saúde sem sair de casa

Imagem para ilustrar a coluna de Roxana Tabakman de 26 de agosto de 2021.

Por: Roxana Tabakman

“Os autodidatas costumam ser ávidos e rápidos, e nós, naqueles tempos, fomos assim para seguir abrindo caminhos para o melhor ofício do mundo, como chamávamos o jornalismo”, dizia Gabriel García Márquez, que relatava que nos tempos em que não havia escolas de jornalismo, aprendia-se tudo “nas redações, nos workshops de imprensa, no café da frente, nas festas de sexta-feira”.

Escolas de jornalismo existem hoje em dia, mas o ensino de jornalismo científico ainda é insuficiente. Menos de 5% das universidades públicas do Brasil, por exemplo, tem jornalismo científico como matéria obrigatória. Seis em cada dez não oferecem nenhum tipo de formação nessa especialidade.

Onde aprender tudo o que um jornalista de saúde na América Latina precisa saber, se as alternativas propostas por Gabo já não estão disponíveis? As redações se esvaziaram, as associações estão em vias de extinção e os cafés e as festas foram as primeiras vítimas do distanciamento causado pela pandemia.

O autodidata latinoamericano, iniciante ou profissional, pode se banhar em tudo o que há na internet no seu idioma (ainda que seja uma parte ínfima daqueles que dominam o inglês tem à sua disposição). Escrevo a seguir uma lista de sugestões que, felizmente, o espaço desta coluna me obriga a deixar incompleta.

Espanhol, português e guarani

O seminário web “Cobertura sobre a vacina da COVID-19: o que os jornalistas devem saber”, oferecido pelo Centro Knight para o Jornalismo nas Américas, da Universidade do Texas, em espanhol, português e também guarani, ocupa um lugar especial.

É bom estar atento a outros cursos, além de livros eletrônicos e guias oferecidos pelo programa de aprendizagem à distância do Centro Knight, em espanhol e português. Eles não estão focados apenas na ciência e permitem ao jornalista que se capacite em novas formas de fazer jornalismo de saúde e ciência como Introdução ao jornalismo de dados: como encontrar e processar grandes volumes de informação, ou como rastrear o dinheiro público.

O curso online de jornalismo científico da Federação Mundial de Jornalistas Científicos (WFSJ) e a Rede de Ciência e Desenvolvimento (SciDev.Net) foi traduzido ao espanhol e ao português. Cobertura de controvérsias, cobertura de políticas científicas e como filmar ciência são alguns dos temas desenvolvidos. Os cursos pedem respostas a perguntas e entregam tarefas aos participantes.

A Rede Internacional de Jornalistas – IJNet – oferece artigos de capacitação em espanhol e português, como Chaves para detectar informações erradas nas coberturas de ciência, ou Como encontrar pautas e fontes de ciência no Science Pulse, a ferramenta que monitora as conversas da comunidade científica nas redes sociais.

Há bastante recursos que estão apenas em um dos idiomas, em espanhol ou em português. The Open Notebook, organização que proporciona ferramentas e recursos para ajudar os jornalistas de ciência, meio ambiente e saúde em todos nos níveis de experiência, tem 36 de seus mais de 450 artigos em espanhol. Mas entre esses há conselhos valiosos, como: Como encontrar fontes científicas e planejar entrevistas.

Outra recomendação é fazer um giro por universidades, associações científicas ou redes profissionais de jornalistas científicos. Todas estão virtualizando suas atividades por causa da pandemia e alguns recursos estão disponíveis para uso contínuo. Dois exemplos argentinos são o Workshop de Jornalismo Científico da Universidade Nacional de San Luis, e os cursos da Diplomatura Universitaria Superior en Comunicación Pública de la Ciencia da UNICEN, Universidade Nacional do Centro da Província de Buenos Aires.

Temas específicos

Outra opção é ir passo a passo, aprendendo ou atualizando os conhecimentos em temas específicos. Isso permite acompanhar o tema sem se perder no excesso de informação.

De acordo com o tema que você tenha que cobrir esta semana, você pode escolher entre o webinar da OPS, Dióxido de Cloro: O que perdemos ao provar isso? O respeito aos direitos dos pacientes, ou Conselhos para informar com profissionalismo sobre as vacinas contra a COVID-19. Isso é importante porque, ao consultar nossas fontes (ou “googlear”), vamos encontrar sempre dados e opiniões, mas podemos fazer mais mal que bem com elas.

É muito importante reservar um tempo para ler os manuais de cobertura que ressaltam aspectos específicos, especialmente se contam com a experiência de jornalistas da América Latina. Como por exemplo Boas práticas em comunicação sobre HIV e AIDS, ou Mini manual para a cobertura jornalística das mudanças climáticas. Para focar a discussão sobre saúde no debate sobre a mudança climática, escrevemos, com colegas da região, o e-book Jornalismo e mudança climática / Guia para a cobertura jornalística com foco na saúde.

Jornalistas são estudantes permanentes. Não existe tanta diferença nas necessidades de treinamento entre novatos e profissionais com anos de experiência. Se você escreve sobre as mesmas doenças há anos, pode precisar encontrar novos ângulos para não fazer mais do mesmo. Livros temáticos como Desmitificar o câncer, ou vídeos curtos como Dicas para a cobertura jornalística do câncer da iniciativa Jornalismo científico em 5 minutos da RedeComCiencia também cumprem essa função.

Aprender com o exemplo

As premiações de jornalismo como o Prêmio Roche de Jornalismo em Saúde têm o objetivo de mostrar o caminho da excelência. Você pode ver os trabalhos vencedores na seção “edições anteriores”.

Há ainda a iniciativa espanhola Percientex, que busca e divulga exemplos de artigos inovadores e da alta qualidade na impressa digital sobre ciência, tecnologia, saúde e meio ambiente.

É possível aprender bastante também nas raras entrevistas feitas aos jornalistas de saúde, como a entrevista feita ao brasileiro Gabriel Alves, biomédico, matemático e doutor em biologia e jornalista que escreve sobre saúde em um meio massivo e ensina Do câncer à matemática: como escrever sobre temas difíceis; ou o TedX Talk no qual Nora Bar, referência no tema na Argentina, dá sua visão de nosso trabalho em O Jornalismo científico ajuda na tomada de decisões.

Ser autodidata não obriga a pessoa a aprender sozinha. Os cursos com data, hora e instrutores têm suas vantagens. Esse modelo é seguido por muitos cursos, tanto das organizações mencionadas nessa coluna, como naqueles dados por alguns meios. Dois exemplos: os jornais Folha de São Paulo, do Brasil, e El País, da Espanha, têm programas de treinamento online em jornalismo de ciência e saúde.

Estar em dia com as novidades, avaliá-las com ceticismo e colocá-las em contexto em questão de horas é um desafio. Computador, telefone, celular, fones de ouvido, microfone, webcam e conexão com a internet são indispensáveis. Mas talvez o que o jornalista mais precisa é saber quando ficar offline. Porque como dizia Gabo: “O jornalismo é uma paixão insaciável que só pode ser digerida e humanizada pelo confronto descarnado com a realidade”.

Sobre o Prêmio Roche

O Prêmio Roche é uma iniciativa da Roche América Latina, com a Secretaria Técnica da Fundação Gabo, que busca premiar a excelência e a cobertura jornalística de qualidade sobre saúde na região.

Para mais informação ou para tirar dúvidas sobre a nona edição do Prêmio Roche, escreva para o email: premioroche@fundaciongabo.org

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