#ComDados: Como (e onde) combater o negacionismo de músicos, atletas, empresários e chefs

Imagem da nota de desinformação de 14 de julho.

Por: Cristina Tardáguila

Depois de um ano e meio de pandemia, a mídia mundial entendeu – e até se acostumou – a rebater a desinformação relacionada à COVID-19 nas editorias de saúde, política nacional e internacional. Mas, com o claro avanço do movimento anti-vacinas, é importante que os jornalistas se preparem para enfrentar a crise de saúde – e as mentiras que a acompanham – nas páginas de cultura, esporte e economia. Esse público também merece atenção.

Com o surgimento das vacinas contra a COVID-19 e sua distribuição pelo mundo, cresceu de forma avassaladora a lista de artistas e cantores que adotaram posições negacionistas e que passaram a criticar programas de imunização, isolamento social e uso de máscaras, além de defender tratamentos ineficazes como formas de prevenção ou cura para COVID-19. Entre eles estão (infelizmente) os brilhantes Eric Clapton, Andrea Bocelli, Miguel Bosé, Van Morrison e Madonna.

No mundo dos esportes, o problema é semelhante. O piloto de Fórmula 1 Lewis Hamilton, por exemplo, compartilhou com seus mais de 18 milhões de seguidores no Instagram uma entrevista editada e fora de contexto em que o empresário Bill Gates falava sobre vacinas. Junto com a gravação, Hamilton escreveu (em inglês) “Lembro-me da minha primeira mentira”, como uma forma de ironizar o que Gates dizia e revelando sua posição crítica sobre a imunização.

Entre os empresários, Elon Musk ganhou as manchetes ao questionar os testes para identificação do novo coronavírus. Para seus mais de 40 milhões de seguidores no Twitter, o dono da SpaceX e da Tesla também chegou a minimizar os sintomas da COVID-19, dizendo que eles eram todos leves.

Até a gastronomia foi afetada por informações incorretas relacionadas à pandemia. No Brasil, por exemplo, o famoso chef Henrique Fogaça, que apresenta um reality show gastronômico, foi um dos principais porta-vozes das teorias da conspiração sobre a origem do novo coronavírus.

Então, como você lida com esses gigantes que, propositalmente ou inadvertidamente, desinformam sobre a pandemia? Aqui estão alguns passos:

1. Editores e executivos de mídia devem entender que é vital que a batalha contra as notícias falsas sobre a pandemia não se restrinja às seções de saúde ou política. Milhões de pessoas em todo o mundo não consomem informações publicadas ou divulgadas nesses espaços, mas ainda assim recebem dados falsos sobre a COVID-19 e as vacinas. É importante, portanto, permitir que a cobertura de saúde cresça e alcance todas as editorias e programas.

2. Ao lidar com a desinformação disseminada por artistas, atletas, empresários e chefs, o público deve ser lembrado de que, apesar de todo o sucesso que tiveram ou têm em suas carreiras, essas celebridades não são especialistas em saúde. Eles sabem tanto sobre ciência e medicina quanto qualquer outro cidadão comum. Por isso é necessário separar o homem (ou a mulher) de seu trabalho, entendendo e explicando as capacidades de cada um.

3. Lembre-se de que é claro que há uma batalha pelo clique na indústria do jornalismo, mas isso não pode ser motivo para pedir a opinião de cantores, atores, jogadores de futebol e outras celebridades sobre sua saúde. Assim como não entrevistamos um médico ou um cientista sobre a qualidade de um show de rock, não devemos dar  voz a um cantor para que ele comente a pandemia.

4. Se a celebridade expõe espontaneamente falsidades sobre as vacinas ou a COVID-19, a informação não pode chegar ao público sem a devida filtragem. Não é bom escrever um texto sobre a mentira contada por uma pessoa famosa sem trazer também o ponto de vista e as informações dadas pelas autoridades sanitárias.

5. Encontre a melhor maneira de entregar as checagens para os públicos que nem sempre as consomem. Pense duas vezes na melhor forma (vídeo, texto, foto, infográfico) e também nas melhores palavras. A militância não se restringe ao universo político. Ela também existe entre os fãs de cultura, gastronomia e esportes.

Para levar em consideração

– Todos recebem notícias falsas sobre COVID-19 e vacinas. Vamos trabalhar para alcançar a audiência onde quer que ela esteja. Ou seja, nas diferentes editorias do jornal, programa de rádio ou televisão, e com diferentes formatos.

– Assim como médicos, cientistas e autoridades de saúde não costumam ser entrevistados para comentar os resultados de partidas de futebol, shows ou pinturas, artistas e atletas não devem ganhar espaço para comentar sobre vacinas, isolamento social, máscaras e outras questões de saúde.

Sobre o Prêmio Roche

O Prêmio Roche é uma iniciativa da Roche América Latina, com a Secretaria Técnica da Fundação Gabo, que busca premiar a excelência e a cobertura jornalística de qualidade sobre saúde na região.

Para mais informação ou para tirar dúvidas sobre a nona edição do Prêmio Roche, escreva para o email: premioroche@fundaciongabo.org

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