Relatoria do Prêmio Roche de Jornalismo em Saúde – categoria Cobertura Diária 2020

Relatoría sesión de juzgamiento Cobertura Diaria Premio Roche 2020.

Introducción

Durante oito anos a Roche América Latina e a Secretaria Técnica da Fundação Gabo reconheceram e premiaram a excelência, a ética e o rigor do jornalismo de saúde realizado na América Latina. Em 2020, a resposta e a recepção do Prêmio Roche de Jornalismo em Saúde entre os colegas foi recorde, com 876 inscrições recebidas de 19 países.

Neste ano, o prêmio teve três categorias, das quais uma – Cobertura Diária – estreou nesta edição, enquanto as outras duas se adaptaram para responder à transformação dos formatos e das plataformas para a difusão de informação. Foram três categorias ao todo: Jornalismo Digital (504 trabalhos inscritos), Cobertura Diária (254 inscrições) e Jornalismo Sonoro (118 trabalhos inscritos).

Outra novidade do Prêmio Roche em 2020 foi a menção honrosa em jornalismo de soluções, criada para promover a produção de histórias jornalísticas que investiguem, narrem e expliquem com profundidade as respostas que instituições, comunidades e pessoas estão desenvolvendo ante os desafios, problemas e brechas da saúde na América Latina.

A conjuntura gerada pela COVID-19 propiciou a criação de uma nova menção honrosa para reconhecer a abordagem jornalística da pandemia e sua relação com a sustentabilidade dos sistemas de saúde na América Latina. Essa menção recebeu 283 inscrições.

As sessões foram realizadas por teleconferência entre cada grupo de jurados e assessores para as duas menções honrosas, com o apoio técnico da equipe da Fundação Gabo, nos dias 12, 13, 14, 15 e 17 de agosto.

Antes disso, um grupo de jornalistas ibero-americanos fez uma primeira avaliação das inscrições em cada categoria da premiação, acompanhado por Guillermo Capuya, assessor médico desta edição do Prêmio Roche, que analisou o rigor técnico e científico dos trabalhos jornalísticos inscritos.

O pré-jurado desta oitava edição, na cobertura diária, foi formado por Mónica González Islas, fotógrafa e documentarista, especialista em edição, produção e visualização em multimídia em documentários, vídeo, ilustração, animação e fotografia; Carlos Salinas Maldonado, jornalista da Nicarágua, escreve para o jornal El País da Espanha desde 2008; Nathalia Passarinho, trabalha como repórter da BBC News Brasil e vencedora do Prêmio Roche 2019 e Iván Maestre Vera, jornalista equatoriano que trabalhou em meios de comunicação há 20 anos.

Após a revisão dos requisitos técnicos e da pré-seleção realizada pelo grupo de jornalistas ibero-americanos, 49 trabalhos jornalísticos chegaram à instancia final de Jornalismo Digital, 17 em Cobertura Diária e 11 em Jornalismo Sonoro.

Dessas categorias foram escolhidos um vencedor, dois finalistas e uma menção honrosa no tema “Acesso à saúde” em cada categoria.

No caso das inscrições para a menção honrosa em Cobertura da COVID-19, dos 283 trabalhos recebidos, 219 cumpriram com os requisitos técnicos e passaram a ser avaliados pelo grupo assessor; 9 deles chegaram à instancia final. Em relação à menção honrosa em Jornalismo de Soluções, 15 inscrições chegaram à etapa final.

As inscrições foram avaliadas pelo jurado e pelo assessor médico. São eles:

Marianela Balbi:

Jornalista venezuelana com 30 anos de profissão. Diretora executiva do Instituto Prensa y Sociedad de (IPYS) Venezuela e professora da pós graduação de jornalismo de investigação da mesma instituição e da Universidad Católica Andrés Bello.

Autora do livro ‘El rapto de la odalisca’ (Aguilar, 2009), uma investigação jornalística em arte e cultura; e de ‘Soy Bárbara, soy especial’ (Planeta, 2016), um relato de vida sobre Bárbara Rondón, uma mulher com síndroma de down. Vencedora do Prêmio Roche 2018 na categoria Internet.

Daniela Pinheiro:

Atualmente é bolsista do Reuters Institute for the Study of Journalism na Universidade de Oxford, na Inglaterra. Também foi bolsista da John S. Knight fellow pela Universidade de Stanford. Foi a primeira mulher nomeada diretora de Redação de uma revista semanal no Brasil, cargo que desempenhou na Revista Época desde fevereiro de 2018 até setembro de 2019.

Começou a carreira como jornalista na Folha de São Paulo, maior jornal do Brasil, e logo foi repórter e editora na Veja, maior revista semanal do país. Entre 2006 e 2017 trabalhou como editora da Revista Piauí, onde também atuou como curadora do Festival Internacional de Jornalismo da Piauí. Foi quatro vezes vencedora do Troféu Mulher Imprensa e ganhou em três ocasiões o prêmio Comunique-se como melhor jornalista de meio impresso do país.

Assessor médico: Guillermo Capuya

Médico egresso da Universidade de Buenos Aires e especialista em urologia. Trabalhou em Transplante Renal (INCUCAI), foi bolsista pela Sociedade Argentina de Urologia para o Michigan Center em Michigan (EUA) em 2002 e é membro da Sociedade Argentina de Urologia e da Confederação Americana de Urologia. É apresentador e colunista de temas médicos em programas de televisão e rádio como C5N, Metro, Magazine, CN23, América, entre outros.

Um prêmio às coberturas diárias no jornalismo em saúde

Marianela Balbi, jurada da categoria Cobertura Diária, destacou a habilidade de alguns autores, que chegaram à etapa final por encontrar o equilíbrio entre as histórias humanizadas e o as cifras e os dados informados. Além disso, Balbi ressaltou que essas coberturas foram feitas em zonas longínquas, “geralmente esquecidas pelo jornalismo e que nunca chegam a ser visíveis”.

A jornalista venezuelana indicou que um trabalho nesta categoria de cobertura diária não pode parar só no contraste da informação e deve ir até o fim para contar todas as visões possíveis da história.

Daniela Pinheiro, por sua vez, afirmou que o fato de que esses trabalhos são resultado da cobertura ou agenda diária de um meio de comunicação não é desculpa para não trazerem novidades ou não apresentarem um enfoque original sobre temas já publicados. O objetivo tem que ser o de atrair a audiência a partir de trabalhos com um conteúdo adequado, que não se convertam em histórias saturadas.

Jornalismo de saúde desde a perspectiva de gênero

Seguindo as pautas antes mencionadas, o jurado encontrou tais características em “Elas por Elas”, série brasileira vencedora da categoria e que é “um trabalho investigativo completo” nas palavras de Daniela Pinheiro. “Desde o ponto de vista do jornalismo, destaco o fato de que a série de histórias foi construída por uma rede de freelancers incrível, incluindo pessoas externas ao jornalismo: acadêmicos, médicos, entre outros, dando uma visão muito ampla do tema”, agregou.

Para o jurado, este projeto editorial (publicado em Metrópoles) possui valores jornalísticos, narrativos e de enfoque social ao cobrir a violência de gênero em Brasília durante os 365 dias de 2019, visibilizando as dimensões de um problema de saúde que afeta a mulheres de todas as classes e condições sociais.

Marianela Balbi, por sua vez, destacou a diversidade que o trabalho contempla e a habilidade em ir de Brasília ao global, assim como o seguimento sistemático do tema desenvolvido pela equipe jornalística, que entendeu o entorno e as histórias das vítimas.

O assessor médico Guillermo Capuya assegurou que o trabalho “Elas por Elas” é um trabalho de saúde “porque a violência é um fator psicossocial. Não é uma síndrome evidenciada em um exame de laboratório, mas sem dúvida tem efeitos na psique da pessoa, além do dano que causa no outro. Por isso é um tema de saúde”.

O trabalho faz um uso importante dos dados, destaque da categoria, entregando informações e cifras que eram desconhecidas pelas autoridades no Brasil.

O valor das reações

Além da divulgação das necessidades de uma comunidade, o jurado também deu valor às reações geradas pelos trabalhos, especialmente com os escolhidos como finalistas em Cobertura Diária.

Sobre “Aflora mercado negro de medicamentos afuera del Hospital General de Culiacán”, Marianela Balbi comentou que é um trabalho que tem valor por provocar reação dos funcionários públicos, assim como a abertura de averiguações e investigações das denúncias”, e o comparou ao que ocorre em outros países da América Latina como Venezuela, “aonde o jornalismo revela e expõe constantemente dados e situações indignantes e impactantes, sem que essa informação gere alguma reação nas autoridades”.

Segundo o jurado, esta situação não ocorre com o trabalho da equipe do jornal El Debate do México, que Daniela Pinheiro ressalta por ser um scoop (furo).

Marianela Balbi destacou a prevenção que o jornalista deve ter de não perder o foco do trabalho e ficar apenas na cobertura das reações oficiais às revelações da história, deixando de lado outros aspectos importantes da hipótese inicial do tema.

O tema tratado no trabalho “Cobertura sobre las fallas en el Programa de Trasplante de Médula Ósea de PDVSA”, de El Pitazo da Venezuela, gerou diversas reações em seu país de origem por causa da grande repercussão dos meios de comunicação sobre o tema reportado.

“É um tema muito impactante por refletir o desdém, a situação de morte de crianças por falta de transplante de medula óssea e basicamente pela falta de atendimento de um programa que vinha cobrindo essa deficiência do sistema de saúde venezuelano”, disse Marianela Balbi.

Para a jurada, a diferença deste trabalho em relação a outros que abordaram o mesmo tema na categoria é a cobertura diária que foi além do clássico, assim como o tratamento dado às versões oficiais. “Este trabalho conta com um valor adicional que é deixar bem clara a responsabilidade do Estado, assim como o distanciamento que consegue diante da polarização política ao redor do tema, alcançando a independência em sua abordagem”, acrescentou.

Inovação ou acesso à saúde?

Para o jurado de Cobertura Diária, o trabalho “Venenos do Bem”, vencedor da menção honrosa em acesso à saúde para esta categoria, tem ambos ingredientes. “É uma inovação que gera novos medicamentos que podem dar acesso a soluções de saúde”, afirmou Marianela Balbi.

Para a jornalista venezuelana e seus companheiros de jurado, o trabalho enfatiza a importância do desenvolvimento de terapias inovadoras baseadas em venenos e toxinas de aracnídeos, serpentes e moluscos, que ampliam o acesso a novos medicamentos com possibilidade de diminuir os custos e produzi-los em grande escala.

Daniela Pinheiro indicou que o trabalho da Rede Minas de Televisão, do Brasil, leva a audiência a aprender coisas novas, além de “misturar adequadamente histórias e dados investigativos”. Marianela Balbi ressaltou a boa narrativa televisa do trabalho junto a recursos como infográficos e imagens.

“O trabalho fala sobre gerar medicamentos por uma via legal com uma regulação adequada para que eles sejam eficazes e seguros, e isso tem a ver com acesso à saúde. Ele informa à população sobre um produto acessível, seguro, novo e eficaz”, afirmou Guillermo Capuya, assessor médico do prêmio.

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