Assim se constroem grandes histórias com temas de saúde, segundo Debbie Ponchner e Vinicius Sassine

Onde encontramos boas histórias? Esse foi um dos questionamentos feitos ao brasileiro Vinicius Sassine e à costarriquense Debbie Poncher durante o seminário web “Como construir grandes histórias com temas de saúde”. A resposta foi: “tudo se resume a cultivar boas fontes, que tenham informação valiosa e depois seguir seu olfato jornalístico”.

Sassine, vencedor do Prêmio Roche de Jornalismo em Saúde 2017 na categoria Jornalismo Escrito, e Debbie Ponchner, jurado da mesma edição do prêmio, falaram no webinar sobre as habilidades que um jornalista de saúde deve ter e os desafios que deve enfrentar na hora de fazer um trabalho de qualidade sobre temas de saúde.

Intuição e olfato

Vinicius Sassine conseguiu descobrir uma história merecedora de diversos reconhecimentos de jornalismo, como o Prêmio Roche de Jornalismo em saúde e o Prêmio Internacional de Jornalismo Rey de España seguindo dois sentidos jornalísticos: intuição e olfato.

“Uma pessoa me deu uma informação genérica sobre uns médicos que estavam bravos porque não tinham como transportar uns órgãos para transplante. Não havia dados dos familiares, nem das pessoas que estavam nessa situação, mas investigamos assim mesmo”, comentou Sassine, jornalista de O Globo, no webinar.

“Recusas da FAB impedem transplantes de 153 órgãos” é a primeira de uma série de reportagens com as quais ele ganhou o Prêmio Roche em 2017. Começa com a história de um garoto que esperava um coração para ser transplantado, mas que faleceu porque não havia como transportá-lo. Sassine iniciou a história com um caso específico e conseguiu uma repercussão enorme, já que a comunidade começou a questionar porque a Força Aérea do Brasil não foi buscar esse órgão ao mesmo tempo em que tinha transportado pessoas de cargos importantes em seus aviões. Necessitou-se de seis meses para conseguir as informações dos 153 órgãos que deixaram de ser transportados pela FAB.

Coragem e rigor para contar uma história

“As grandes histórias não podem esperar”, afirmou Sassine durante a conversa pela web. “Há que ter coragem para decidir como fazer a investigação que se deseja”.Ainda que Sassine se descreva como “um repórter de investigação, não necessariamente de saúde”, seu foco está “em tudo o que nos toca como cidade, como país”. Neste caso, como o tema era de saúde, ele diz que a responsabilidade foi muito grande “porque se se escreve algo sem fundamento pode derrubar todo o trabalho. Tínhamos que ter rigor científico”.

Essa investigação que terminou em uma denúncia desencadeou uma reação imediata por parte do governo, que utilizou a informação publicada entre janeiro e junho de 2016 em O Globo para promulgar uma lei que autoriza a FAB a transportar órgãos para transplantes.

Aproveitar as leis

De acordo com o jornalista brasileiro, essa foi uma tarefa dura, pois “os médicos são pessoas muito fechadas, não é fácil obter informação sobre o diagnóstico de um paciente e, menos ainda, de uma criança de 12 anos. Usamos a lei de acesso à informação para conhecer os processos e conseguimos uma planilha com todos os dados, órgãos e dias de rejeição a transporte nos anos de 2013, 2014 e 2015”.

Questionar a informação oficial

Debbie Ponchner, uma das juradas que escolheu Vinicius como vencedor da edição 2017 na categoria Jornalismo Escrito, indicou que muitas vezes um jornalista deve lidar com a informação oficial maquiada, mas sempre existem funcionários que estão dispostos a falar. “Por isso é importante cultivar fontes. O que se deve fazer é pegar a informação oficial e questioná-la; buscar sempre a informação e confrontá-la. Se o jornalista encontra irregularidades, então deve fazer uma denúncia”.

A importância de trabalhar em equipe

“O jornalismo é um trabalho em equipe”, afirmou Sassine. Apesar de a investigação ter sido feita de forma individual, ele sempre esteve acompanhado por um repórter fotográfico com quem discutia e se retroalimentava sobre a melhor maneira de abordar a história.

“Você sempre vai depender de outros profissionais, de um editor, de um fotógrafo”, disse o brasileiro. Ponchner agregou, nesse sentido, que “o jornalista não estará sozinho, pois o trabalho do editor é importante”.

“Há trabalhos que precisam de uma equipe, que se apoiem, que o tema que se está investigando seja lido por outros jornalistas para conseguir mais informação com fontes e editores. Há que pensar coletivamente”, afirmou a jornalista costarriquense.

Lidar com as solicitações para não publicar

Sassine brigou com o Ministério da Saúde ao terminar a reportagem. Ele contou durante o seminário web que o órgão estatal fez “terrorismo com a gente, porque a reportagem iria provocar uma mudança negativa no sistema de transplantes já que, segundo eles, as pessoas iriam ler a história e não iriam querer doar mais órgãos pela falta de transporte”.

A força aérea tampouco queria que se publicasse a reportagem, o que significou pra Sassine “uma decisão um pouco mais difícil para mim que para o editor”. Mas o editor, segundo Sassine, “estava firme na posição de mostrar o que estava acontecendo, porque se tratava de uma investigação correta, bem feita”.

Identificar que tipo de jornalismo de saúde se está fazendo

Levando em consideração essa investigação e o exercício jornalístico de Vinicius Sassine, Debbie Ponchner fez uma classificação dos distintos tipos de jornalismo de saúde, e identificou em qual descrição está a reportagem de Sassine.
Ponchner indicou que o jornalismo de saúde pode ser:

1) Explicativo. “É a reportagem na qual explicamos ao leitor ou à audiência algo sobre a saúde, uma doença, do que se trata, algo básico, mas importante para o público”.

2) Aquele que informa sobre os avanços do jornalismo médico ou científico. “É quando, baseados nas revistas científicas ou congressos, falamos sobre um avanço, explicando-o em uma linguagem comum, deixando de lado os tecnicismos para dar uma informação entendível à audiência.

3) Aquele que aborda temas de saúde pública, de denúncia e de investigação

“Na minha opinião o trabalho de Vinicius está entre as categorias dois e três. Aborda um tema de avanço médico como os transplantes, mas terminando denunciando, baseado em uma árdua investigação, uma inconsistência em um assunto relacionado com o acesso à saúde”, disse Ponchner.

Decidir em qual forma será publicada a informação

De acordo com Vinicius Sassine, isso depende de cada história. Cada tema vai exigir um método diferente. “É uma grande discussão nas redações quando você tem uma grande história nas mãos”, comentou. “O que tínhamos exigia uma série de reportagens. Se é um tema de investigação, em geral vai haver uma reação. Publica-se a história e se dá seguimento a ela. Os repórteres sempre vão querer todo o espaço do mundo”.

A relevância dos bons trabalhos jornalísticos em saúde

De acordo com Debbie Ponchner, há na América Latina o surgimento de jornalistas especializados em ciência e saúde, e de meios especializados. “Hoje em dia há mais capacitação para jornalismo científico na região que nos últimos 20 anos. Os temas de saúde são os que mais registram buscas na web”.
Entretanto, argumentou Ponchner, há meios que, para ter mais audiência, “desinformam em vez de fazer um jornalismo sério”.

Por isso, ela insistiu na importância de se seguir o caminho de Vinicius Sassine: fazer um jornalismo de saúde de uma forma séria, com fundamento e responsabilidade.
Sassine agregou que “a informação segue sendo valiosa, sobretudo em uma época de fake news, de mentiras, de informações incorretas. Os jornalistas têm que resistir, seguir produzindo informação de qualidade”.

Não se escreve para ganhar prêmios

Durante a conversa, tocou-se em um ponto chave: quando se faz um trabalho como esse, há uma orientação de fazê-lo para que se ganhe um prêmio? “Na verdade, não”, respondeu Vinicius. “Eu tenho uma filosofia, porque para mim os prêmios são consequência. Deve-se fazer o trabalho sem pensar nisso, na minha opinião pessoal. O repórter deve fazer as investigações necessárias, lutar pelo espaço no jornal e, se é merecedor de um prêmio, ele virá. Mas não se trabalha para isso”.

A verdadeira importância de um prêmio de jornalismo em saúde

As premiações de jornalismo como o Prêmio Roche, disse Ponchner, têm um grande valor: dão destaque ao que ocorre em nossos países. “É uma boa razão para aprender com o que está sendo feito pelos nossos colegas em outros países. É uma oportunidade de crescimento. Somente o fato de participar já é enriquecedor”.

Sassine, por sua vez, indicou que a importância do prêmio está não apenas na visibilidade e reconhecimento que ele traz, mas também porque abre portas a bolsas, oportunidades de capacitação, e a ser convidado para falar a outras pessoas de seu trabalho e experiencia.

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