Relatório do Prêmio Roche de Jornalismo em Saúde – categoria Jornalismo Escrito 2013

Relator: Augusto Otero Herazo

Introdução

A primeira edição do Prêmio Roche de Jornalismo em Saúde, na categoria Jornalismo Escrito, contou com 97 trabalhos apresentados, 55 dos quais foram seleccionados e avaliados por um juri composto por Ignacio Fernández Bayo, vice-presidente da Associação Espanhola de Comunicação Científica (AECC) e Rafael Obregón, Chefe de Comunicação da Unidade de Desenvolvimento da Unicef. A equipe foi assessorada por Esther Samper, médica com mestrado em Biotecnologia, divulgadora científica e blogueira do diário espanhol EL PAÍS.

No dia 14 de junho de 2013, o juri reuniu-se para indicar os candidatos ao prêmio e escolher o vencedor.  Durante o debate, refletiu-se sobre a qualidade da narrativa, o rigor das pesquisas, as principais tendências e as lacunas que se observam no cenário do jornalismo em saúde na Ibero-América. Este texto apresenta as principais contribuições e recomendações dos avaliadores sobre os temas mencionados.

A denúncia prevalece em pauta

O jornalismo de denúncia enfoca a informação sobre os avanços em diagnósticos, tratamentos e novos desenvolvimentos da medicina. Para o juri, essas informações são especialmente relevantes na América Latina, em grande parte devido às deficiências existentes na prestação do serviço, à falta de consolidação dos sistemas de saúde e também ao fato de que as autoridades, e de forma geral os atores do sistema, não atendem adequadamente às demandas da população.

É um jornalismo de denúncia que para os avaliadores é bem elaborado, visto que combina os depoimentos das pessoas com as vozes daqueles que têm a obrigação de responder como autoridades, respeitando assim o princípio básico do equilíbrio de informações. “Temos que dar a todos a oportunidade de se expressarem, para não acabarmos praticando um jornalismo de denúncia apenas ou de publicidade institucional”.

Na opinião dos avaliadores, a cobertura dos diversos aspectos dos temas de saúde, além de revelar as carências e denunciá-las, abre espaços de participação que ajudam a corrigir os problemas e, nesse contexto, cumpre uma função social importante. “Os jornalistas têm consciência disso e o fazem amplamente (informar)”.

Pelo material examinado, o juri observa que no outro extremo da cobertura estão os temas relacionados com pesquisas de ponta no campo da medicina ou dos medicamentos, realizadas principalmente nos países mais desenvolvidos.

Nesse sentido, e à guisa de recomendação, consideram que os repórteres que cobrem temas de saúde devem estar atentos e abertos à pesquisa realizada nos países da região. Pode ser incipiente em alguns casos, mas está em crescimento. Por outro lado, não se deve perder de vista aquela que acontece em outros países, não só pelas novidades e avanços que é relevante difundir, mas também para establecer comparações sobre o grau de avanço ou os investimentos que um país deve fazer nessa área.

“Alguns dos trabalhos avaliados mencionam as últimas novidades, mas são poucos”, observam, e sugerem que sem desconsiderar de forma alguma a importância do que é necessário fazer em matéria de denúncias, devem ser incluídos na pauta os avanços em áreas como a Biomedicina.

Para o juri, não é um erro que o jornalismo de saúde, principalmente aquele produzido na América Latina, destaque as deficiências do sistema, mas não é necessário que imite o jornalismo dos países europeus, ou dos Estados Unidos, onde a cobertura dos avanços e da inovação tem mais peso. “Não é um erro destacar as deficiências do sistema, mas é necessário introduzir, pouco a pouco, mais informações sobre os avanços tecnológicos no campo diagnóstico, terapêutico ou preventivo”.

Qualidade da narrativa

Quanto à qualidade da narrativa, o juri salientou o número significativo de reportagens de conteúdo humano, um atributo muitas vezes ausente no jornalismo científico e mais associado aos peritos.

Essa característica é mais acentuada na América Latina do que na Espanha: a informação inclui depoimentos que dão voz e visibilidade a setores que normalmente não as têm nos meios de informação.

Além disso, sublinharam que os depoimentos e histórias incluídos não são meras pinceladas mas que constituem o enredo completo da reportagem, um valor agregado do jornalismo que está se perdendo, porém muito vivo nos trabalhos avaliados.

A qualidade das investigações, os enfoques e o bom nível narrativo dos trabalhos dificultaram a decisão do juri, principalmente na etapa de seleção dos três indicados dentre os quais seria escolhido um vencedor, e contibuíram para que fossem conferidas menções honrosas a mais quatro trabalhos.

Alertas

Um dos temas polêmicos na discussão foi como os diagnósticos, as terapias ou os tratamentos debaixo do “guarda-chuva” da medicina alternativa devem ser abordados nos meios de informação.

Embora se considere uma obrigação informar sobre todos os avanços nessa área e na medicina tradicional, deve-se agir com muita responsabilidade para evitar a desinformação ou para não gerar falsas expectativas. Nesse contexto, foi sugerido que sempre que informações sobre tratamentos de saúde alternativos forem abordados, o repórter precisa certificar-se que está diante de desenvolvimentos dos quais existem provas de eficácia e consequências.

Em todos os casos, sempre será saudável contar com o contrapeso da opinião de especialistas para que a informação dada ao público seja a mais completa possível e uma mensagem precisa.

Um outro aspecto que chamou a atenção do juri foi a capacitação que os repórteres de saúde devem procurar ter. Dar ao público informações sobre doenças, patologias, possibilidades de tratamento ou prevenção, entre outros, exige formação, e isso nem sempre é levado em conta pelas redações. Pede-se dos repórteres que sejam pedagógicos, que ajudem as pessoas a entender os problemas, mas eles não podem fazê-lo se não tiverem os elementos para entender, analisar e transmitir mensagens claras e precisas.

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