Relatoria Prêmio Roche de Jornalismo em Saúde – Categoria Televisão e Vídeo 2013

Relatora: Ana María Cuesta Rodríguez

Jurados: 

Adelaida Trujillo (Colômbia)

Antropóloga, diretora e produtora de cinema.  Por um ano trabalhou no departamento de música e arte da BBC, como produtora associada e pesquisadora para séries realizadas para a América Latina, dirigidas por Mike Dibb. Atualmente é a Diretora Executiva da Iniciativa da Comunicação para a América Latina –Comminit-   e co-fundadora de Citurna.

Darío Fernando Patiño (Colômbia)

Comunicador social com mais de 32 anos de experiência jornalística em meios impressos e televisivos internacionais. Foi Diretor de notícias do Canal Caracol por dez anos, assim como nos canais RCN TV e City TV. Atualmente é Conselheiro de Notícias do canal Ecuavisa e membro do conselho editorial da revista Vistazo no  Equador.

Assessoria Médica:

Esther Samper (Espanha)

Licenciada em medicina, especialista universitária em Informática Médica e realizou mestrado em Biotecnologia Biomédica. Fundadora de MedTempus, um dos blogs  de medicina em castelhano mais reconhecidos. Dirigiu em 2007 a seção de Saúde de Soitu.es.  Atualmente, é colaboradora de Naukas  e de El País com  o blog “La doctora Shora”.

Introdução:

O jornalismo em saúde merece uma pesquisa completa e constantemente atualizada, com referências globais, pelo carácter taxativo e científico de seus temas. Mas, informar sobre saúde em um formato audiovisual, merece outras considerações estéticas.

O júri elegeu na semifinal, as seis peças que surpreenderam por romper esquemas desde a narração visual, com a construção de cenas que, por exemplo, evocam o sofrimento de um paciente sem a necessidade de dizer explicitamente. Por inovar em histórias humanas remotas do sensacionalismo com uma apresentação rigorosa das fontes, sem esconder a identidade dos profissionais de saúde; Sem dar importância aos “especialistas empíricos” – Por usar uma linguagem para todas as faixas etárias, que não pretende se igualar a linguagem das revistas científicas indexadas.

Para o Júri foi árdua a avaliação equitativa de trabalhos tão diversos. As três peças finalistas, que foram escolhidas após uma ponderação das classificações atribuídas por eles, e pela assessoria médica com qualificações entre: baixa, média, alta, e excelente, tiveram em comum um formato de longa duração.

No final deste julgamento que foi realizado na sala de reuniões da FNPI, em Cartagena Colômbia, o trabalho triunfante foi “Valiente Valentina“, uma peça comovente que não desfruta de uma temática de saúde explícita, pois evitou concentra-se em mostrar uma doença e ocupou-se na luta de uma paciente. Três outros trabalhos receberam menções honrosas.

A importância dos formatos e a técnica

Na categoria ‘Vídeo e Televisão’ 40 trabalhos foram candidatados, dos quais 27 cumpriram com as bases oficiais do Prêmio.  Das 12 peças pré-selecionadas, o Júri considerou que uma delas deveria sair do concurso, pois não cumpria com um formato propriamente audiovisual apesar de sua alta qualidade conceitual.  Por tanto não era passível de comparações. “Tratava-se de uma áudio-galeria; uma sequência de fotos impecáveis com música e narração. Será incluído a uma nova categoria de fotorreportagem que poderá ser criado no Prêmio”, disse Adelaida Trujillo.

Darío Fernando Patiño deixou claro foi difícil avaliar equitativamente entre formatos longos e curtos -com menos de cinco minutos- e entre formatos de televisão comercial e de televisão pública e / ou independente. A pré-seleção se compôs de nove trabalhos de longa duração superiores à meia-hora de duração e três curtos. Quatros trabalhos disputaram na categoria Televisão comercial Internacional, número igual ao de trabalhos de televisão regional na Colômbia. Por parte da televisão pública brasileira dois trabalhos competiram e um por parte da Televisão pública da Argentina.

“Dos trabalhos da pré-seleção, não há algo no formato dos jornais ou programas curtos que seja sobressalente. O que vem das salas de redação não é muito forte nem contundente “, disse Darío Patiño, quem sugeriu que para a próxima versão do Prêmio na categoria ‘Vídeo e Televisão’ não se deve unificar estilos audiovisuais, mas discriminar por maiores formatos por exemplo,: seção de um jornal, documentário…-.

Trujillo insiste que é importante incentivar a difusão em massa dos temas de saúde na TV comercial, que conta com limitações tal como o tempo, mas conta com outros privilégios tais como os recursos técnicos e orçamentários. No entanto, apesar da discussão categórica entre os finalistas do Prêmio ficou uma reportagem de longa duração para a TV comercial para o canal 2 da Televisa, que, de acordo com o júri “pôde ser um caso clássico de tabloide sensacionalista dirigido com discrição e não foi”; no qual um apresentador e um repórter guiam a audiência mostrando o primeiro caso exitoso de transplante braços no México.

Trujillo insiste em que “é visualmente normal, standard. Mas é uma boa história”. Para Esther Samper é valioso o fato de que “não idealiza uma cirurgia. Não tenta vendê-la para todo mundo”.

A outra peça finalista e a vencedora foram reportagens com tintas documentárias, emitidas por canais públicos.

Segundo Darío Patiño, “A via por um fio” da TV Brasil “é composto de boas histórias. Existem muitas fontes, pacientes. Mas a diferença do impecável no conteúdo médico,  há falhas na edição. E do ponto de vista técnico se excede no zoom” .Adelaida Puerta acredita que o aspecto do zoom “deve-se a linguagem do documentário, que é mais calma. Não tanto com o foco da notícia, por mais que assim pareça;  por estar apresentado por segmentos,  por condutores”.

A reportagem vencedora, “Valiente Valentina” de Telemedellín “a narrativa visual é muito boa. Tem uns momentos de câmera e uns recursos fotográficos diferentes. Câmera em movimento, câmera subjetiva”, disse Patiño.

A televisão pública também se impôs com três menções honrosas. Duas delas foram concedidas para as peças com brilhantes recursos técnicos, mas que foram  desqualificadas da final por conter alguns erros informativos.

É o caso de “Combatientes” de Teleantioquia. “Os personagens são dirigidos muito bem, se desenvolvem em três ou quatro planos e desde o ponto de vista fotográfico é muito recursivo. Existe, pelo menos, um olhar fotográfico diferente; e que usa planos que lhe contam muita coisa”, disse o júri.

“Câncer: Avanços e desafios” da TV Brasil foi o trabalho mais aplaudido pela técnica. “Resgatou sua riqueza visual. É o único com vídeo em alta definição. É excelente no que se refere a câmeras, edição, os encaixes são bem feitos”, disse Patiño. “Desde o ponto de vista narrativo, montagem, personagem, sem dúvida alguma é o melhor. Eu gosto do ponto de vista pessoal, o jornalista que se envolve com o tema de dar passos em câmeras com jaleco”, disse Trujillo.

A saúde não admite imprecisões

“Há pouca denúncia, poucas revelações científicas” considerou Esther Samper antes de entrar em uma avaliação detalhada de cada vídeo. Três trabalhos foram excluídos da final, entre outras coisas, por incluir imprecisões informativas evidentes como o seguinte comentário de Samper sobre um trabalho colombiano: “Do ponto de vista médico, a abordagem é média; a doença é muito mais frequente do que se pretende mostrar no vídeo catalogando-a como esquisita”. “Há erros que não podem ser cometidos, como a incerteza na questão do fator hereditário que provoca fibromialgia”, concordou Trujillo.

No entanto, outros erros que a assessoria médica objetou com contundência foram discutidos pelo júri, como o caso que foi explicado sobre as menções especiais. Em “Combatientes“, Samper  assegurou que “o tema da auto exploração da mama, tem muitos falsos positivos. Pois não é um Conselho atualizado e a Organização Mundial da Saúde minimizou a sua importância”.Patiño insistiu em que tematicamente isso não era tão grave para a jornalista, mas para o país; pela desatualização em uma política pública ou uma prática que ainda é recomendada. Outro trabalho colombiano cometeu o mesmo erro.

A reportagem brasileira “Câncer: Avanços e desafios”, destacado por uma pluralidade   de fontes científicas; porém, houve uma polêmica em relação a entrevista que o encerra. Dá muita importância para um Senhor em um mercado público, que diz ser especialista em frutas e alimentos “anti-câncer”. “Este último Senhor faz comentários equivocados como quando diz que o câncer aparece quando você tem um sistema imunológico fraco; geralmente o câncer aparece como um sistema imunológico saudável. Não é verdade que o câncer ocorre devido ao acúmulo de toxinas, nem que o câncer acumule toxinas por si só. É feita uma visão muito frouxa sobre o que comenta alguém que não é profissional de saúde e que deveu contrastar-se”, diz Samper.

A quantidade de fontes certificadas também preocupou a assessoria médica. Em “Tiburones en el Paraná“,  do Canal Encuentro “a saúde é implícita, mas não há um  técnico em saúde ou medicina que expliquem a incidência da integração social nas pessoas com deficiência.” Patiño observou que, em outro trabalho “os médicos que falam não são identificados. Este iniciou com uma entrevista de Skype, o qual  considerou errada, e a entrevistas a um ‘curandeiro’ carece de credibilidade “.

Samper enfatizou que é essencial pedir permissão aos pacientes para o uso seus diagnósticos, pois houve uma controvérsia sobre a informação mostrada no primeiro plano, sobre uma tomografia com informação detalhada “o que é considerado como sendo informação confidencial.”

Os jurados concordam no sentido de que é comum o uso de imagens, de arquivo ou tomas de pessoas caminhando para falar sobre temas delicados, “o qual é reprovável e pode trazer consequências jurídicas no caso de não haver previa autorização.”

O caso “Valiente Valentina”

Após a eleição dos três finalistas, que obtiveram um empate técnico com notas sobressalentes do júri e da assessoria médica, foi decidido premiar a reportagem do jornalista Federico Uribe “Valiente Valentina“, sobre a luta de uma menina com leucemia, por uma razão maior do que a técnica:

“Valentina é uma personagem que você não encontra todos os dias, é o que chamamos no jornalismo, uma oportunidade. É uma honra ter podido capturar essa luta por sua vida. Essa luta não é alcançada todos os dias. Este trabalho deve ter deixado muda a mais de uma pessoa. Se sai do obvio que é falar sobre tratamentos, sobre avanços. É o relato de uma vítima, mais do que o relato de uma doença. O surpreendente é que um canal nacional não faz peças desta escala. Eu o divulgaria no horário nobre”, disse Patiño.

Valiente Valentina está tão bem feito que é uma nota impecável. Tem o valor de mostrar quando ela chega a essa fase final. A sua morte. Eu gostei porque não foi sensacionalista, porque sem exibir disse. Me agrada o fato de que destaque que o hospital onde ela foi atendida é público, e que desde aí pode ser prestado um bom serviço. Nos meios de comunicação este tipo de trabalho com estes formatos fazem falta. Devemos quebrar essas formas ortodoxas do jornalismo, pois a narrativa oferece muitos recursos. Eu sei que estes tipos de trabalhos e formatos exigem um longo tempo, mas por isso são tão valiosos.”

Esther Samper considerou em seu julgamento inicial que esta reportagem “carece de algumas entrevistas com especialistas que expliquem a partir de um ponto de vista médico o que acontece com Valentina, os riscos, o prognóstico”, pois a saúde está presente, mas em um terceiro plano.

Mas o júri se atreveu em evitar as formas ortodoxas, e elegeu uma história que se atreve contar sobre a vida, desde a própria vida.

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