Reflexões sobre o universo variado do sonoro, segundo o jurado do Prêmio Roche 2020

Jurados Periodismo Sonoro Premio Roche 2020

Apesar de os jurados do Prêmio Roche de Jornalismo em Saúde 2020 terem encontrado trabalhos muito marcados pelo formato tradicional de rádio entre os inscritos na categoria Jornalismo Sonoro nesta oitava edição, eles não puderam deixar de notar a emergência de novos formatos nos trabalhos jornalísticos avaliados.

Para Alipio Gutiérrez, jornalista espanhol, especialista em jornalismo em saúde e comunicação audiovisual, “a rádio agora também se vê”. Segundo o jurado na categoria Jornalismo Sonoro, as câmeras nos estúdios de rádio que permitem ver os programas ao vivo e a forma como os comunicadores e locutores realizam seus trabalhos apontam para uma nova via de conexão entre esses meios e suas audiências, para além dos sons.

“Não se escuta mais a rádio apenas por um receptor e um transistor. Também se escuta pela página web do meio de comunicação. Essa nova realidade vale muito a pena, pois multiplica exponencialmente as possibilidades de visibilidade de qualquer notícia que façamos”, comentou Alipio Gutiérrez.

María O’Donnell, jornalista, escritora e cientista política argentina, se referiu ao universo variado do sonoro que existe atualmente na América Latina (que foi comprovado com os trabalhos avaliados no Prêmio Roche 2020), e que é benéfico para o jornalismo de saúde. “Existe um mix. Há trabalhos jornalistícos de rádio em formatos mais tradicionais, mas também alguns podcasts que inclusive exploram o mesmo tema em vários capítulos”, indicou a jurada.

Por outro lado, Alipio Gutiérrez também se referiu ao acesso à informação proporcionado pelos novos formatos digitais do jornalismo sonoro. “Vale a pena apostar nessas novas ferramentas digitais que nos permitem conectar com o conteúdo a qualquer momento. Vou à página, descarrego o áudio e o escuto porque me interessa. Isso permite uma capacidade de acesso à informação que me parece fundamental e que vai ter maior relevância no futuro mais imediato”, indicou o divulgador científico.

Como ter rigor científico no jornalismo de saúde?

A partir da avaliação dos trabalhos que chegaram à etapa final do Prêmio Roche em Jornalismo Sonoro, o jurado desta categoria compartilhou algumas pautas para alcançar esta característica do jornalismo de saúde e que ajudam a dominar o tema:

1. Buscar uma linguagem sensível e uma forma simples de contar algo que em geral tem uma linguagem mais técnica, sem perder a rigorosidade.

2. Ter uma boa assessoria científica e estar certo da importância de dar a informação.

3. Não depender de só uma fonte e encontrar as pessoas que trabalham a partir de evidências científica críveis, como por exemplo associações científicas, especialistas em urologia, em cardiologia, em doenças infecciosas, em epidemiologia, em saúde pública, entre outros.

4. Ler o suficiente e se especializar em temas de saúde/científicos para fazer um jornalismo acertado.

5. Dar seguimento a certos temas, por meio de distintas fontes, para alcançar uma especialização sobre estes e se converter em uma fonte confiável de informação.

6. Manter-se atualizado sobre temas de saúde e ciência, e estar atento às mudanças e modificações da evidência científica para escrever sobre eles.

7. Caminhar e tender a um jornalismo preciso no âmbito sanitário, em tudo o que é relativo à saúde. Ser exemplo e trasladar aos cidadãos aquilo que as sociedades científicas estão dizendo, como a personalização dos tratamentos.

8. Buscar o contraste da informação também com as associações de pacientes que devem ter um peso cada vez mais importante nas questões de saúde em qualquer lugar.

Os temas sonoros em 2020

Para o jurado do Prêmio Roche na categoria Jornalismo Sonoro da oitava edição a paleta de temas tratados nos trabalhos tenha sido bastante ampla, o que para María O´Donnell indica que o “conceito de saúde ainda é muito amplo”. Entre os jornalistas de saúde latino-americanos, alguns temas recorrentes puderam ser identificados, sobretudo em relação ao acesso à saúde.

Alipio Gutiérrez também ressaltou “a carga de denúncia e crítica social dos trabalhos participantes”. “Boa parte dos trabalhos que chegaram à final eram muito reivindicativos nesse sentido e acho isso bom, porque parte do nosso trabalho como jornalistas é analisar a realidade e criticá-la, para bem ou para mal”, disse.

O jurado também destacou a abordagem de temas relacionados a doenças pouco frequentes, mesmo que essas afetem poucas pessoas na região. “Esses temas precisam ser conhecidos para que os cidadãos saibam que não estão sozinhos quando sofrem de uma dessas doenças; que existem associações, movimentos sociais, cívicos, e que se não fossem por essas reportagens certamente as pessoas não os conheceriam”, afirmou o jornalista espanhol.

María O´Donnell chamou a atenção para a escolha de temas “urgentes” como a legalização do aborto, que atualmente está em debate em diversos países da América Latina. “Um tema que para mim é chave é a saúde da mulher, neste caso relacionado com a interrupção da gravidez”, disse.

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