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3 lições sobre jornalismo de saúde que deixou o Roche Press Day 2017

junho 07, 2018
3 lições sobre jornalismo de saúde que deixou o Roche Press Day 2017

Durante a cerimônia do Roche Press Day em 2017 foram realizados dois painéis: “O jornalismo em saúde tem assinatura de mulher”, com duas vencedoras do Prêmio Roche, e “Os desafios de cobrir a saúde, um tema complexo que se aborda desde a denúncia”, com um vencedor e uma jurada do prêmio.

Compartilhamos agora os principais ensinamentos sobre jornalismo em saúde da cerimônia de premiação realizada durante o Roche Press Day. Lembre-se que as inscrições ao Prêmio Roche de Jornalismo em Saúde estarão abertas até 4 de abril. Inscreva-se aqui nas categorias Rádio e Internet.

1. Não é questão de gênero

Nas primeiras quatro versões do Prêmio Roche de Jornalismo em Saúde, foram inscritos 612 trabalhos feitos mulheres de um total de 950. Ou seja, 64% das inscrições foram de matérias realizadas por mulheres.

Martha Amor, vencedora do Prêmio Roche em 2016, e Flavia Duarte, vencedora em 2013, conversaram sobre essa tendência. As mulheres abordam os temas relacionados à saúde de maneira diferente? As mulheres são mais sensíveis ao tema?

Para Duarte, a tendência de que as mulheres sejam as que mais cubram temas de saúde nas redações deve-se a que desde pequenas é ensinado a elas a cuidar. “Esse tema é parte de nossa rotina, inclusive porque os homens não se cuidam. Nós fazemos matérias para ensinar os homens a se cuidarem”, afirma.

Já Amor acredita que essa tendência é devida ao contexto cultural. “Em alguns meios o tema da saúde não é relevante. As áreas de famosos e cultura, por exemplo, são delegadas às mulheres em função de certos preconceitos existentes na sociedade”, diz a vencedora.

Ainda que Amor pense que o gênero não é importante, ela acredita que o fato de ser mulher influiu na investigação com a qual sagrou-se vencedora. “Acho que seria difícil que um homem contasse a história da maneira como que a contei”, afirma, enfatizando que sua reportagem fez referência “aos tabus ainda existentes e que contam com fortes preconceitos”, como “o conceito de histeria, que antigamente era relacionado exclusivamente às mulheres”. “Acho que isso me tocava e me afetava”, relata Amor.

As duas vencedoras concordam que sensibilizar-se ou não sobre um tema em específico não depende de gênero. Entender o que ocorre, nesse caso com os pacientes, é o mais importante para saber contar histórias.

2. A importância de qualificar-se

Roxana Tabakman, jornalista científica e jurada do prêmio em 2017, e Federico Uribe, vencedor na categoria Televisão e Vídeo em 2013, compartilharam suas posturas sobre se é necessário ou não ser especialista em temas de saúde. “Ser um bom jornalista é suficiente para cobrir qualquer tema?

Para Tabakman, a especialização tem que ser um projeto permanente de qualquer jornalista, e a formação em temas relacionados à saúde pode dar-se pelo fato de o jornalista estar em uma redação especializada em esse tipo de cobertura. “As perguntas feitas por uma mente mais especializada são menos sensíveis, mas mais enfocadas em aspectos que a 99% dos jornalistas pode passar batido”, afirma.

Federico, por sua vez, que não é especializado na área da saúde, acredita que muitas vezes o enfoque nesse tipo de temas se dá aleatoriamente. “No ambiente das redações onde estive, na verdade nunca houve um jornalista especializado em saúde. A fonte e como se trabalha com ela é o que faz do jornalista um especialista, e não porque ele estudou para isso. A verdade é que não há muito conhecimento e vontade de aprender por parte dos jornalistas que cobrem saúde”, diz.

3- O enfoque dos trabalhos

A média de idade dos jornalistas que se inscrevem no Prêmio Roche é de 30 anos. Uma das consequências disso é que temas relacionados à saúde são cobertos desde uma perspectiva social e não científica.

Tabakman, que teve a experiência de ser uma jurada do prêmio, acha que os jornalistas não são conscientes do poder que têm ao informar, de maneira correta e ética, os avanços, inconsistências e demais aspectos de temas de saúde. “O que pode ajudar a termos uma medicina mais justa no futuro tem a ver com que ela seja mais barata, mais acessível, e que não desperdice tanto. Não é somente que não roubem os recursos”, diz.

Seria possível então pensar em soluções jornalísticas aplicadas à saúde?

“O noticiário está cheio de más notícias sobre a saúde e nós temos que colaborar com a solução delas, afirma Tabakman. “O caso clássico é quando se publica uma notícia sobre um erro médico. Denunciamos, falamos com a vítima, acusamos o responsável pelo erro, que pode ser um enfermeiro ou um médico. Isso entretém, mas não informa e nem forma. “Qual mudança se produz com isso? Nenhuma.”

A recomendação da jornalista científica é ajudar a população através dos meios de comunicação a ver como funciona o sistema. “Quem formou esse enfermeiro que cometeu o erro? Quem entregou a ele o medicamento vencido? Nunca há apenas um culpado e não resolve nada fazer uma caça às bruxas a aqueles que cometem o erro. Temos que mostrar as soluções: por exemplo, pedir que o sistema hospitalar esteja bem organizado e administrado. Isso não tem tanto glamour, porque é mostrar como se dá o ciclo de decisões públicas até que entreguem um medicamento vencido ao enfermeiro. É algo parecido à informática, mas é aí onde está o problema. Nosso dever é dar glamour à informação que faça a diferença, que provoque uma mudança”, finaliza.

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